1. A história de origem
Minha história começou muito antes de eu conseguir compreendê-la.
Começou em um lugar onde eu ainda não sabia dar nome às coisas.
No campo.
Ali, eu entrava, sentia, tocava, observava.
Brincava.
O campo era território de descoberta.
Era curiosidade.
Era vida.
Eu não olhava para aquele lugar como um problema a ser resolvido.
Eu simplesmente estava ali.
E havia beleza.
2. A menina do campo
Eu era filha de produtores rurais.
O Agro fazia parte da minha história antes mesmo de eu saber que um dia precisaria compreender o que aquele lugar significava para mim.
Enquanto criança, eu vivia aquela realidade de uma maneira muito diferente daquela que percebia nos adultos.
Eu via o campo.
Eles viam as dificuldades do campo.
Eu via beleza.
Eles precisavam lidar com as exigências da realidade.
Eu brincava.
Eles trabalhavam.
Eu sentia.
Eles precisavam resolver.
E, conforme fui crescendo, fui também aprendendo que talvez aquele não fosse o lugar que esperavam que eu ocupasse.
Era uma época em que o Agro era muito associado ao trabalho masculino.
Havia caminhos considerados mais adequados para uma menina.
Então fui seguindo.
A menina da cidade
Fui para a cidade.
E a cidade me ensinou outras coisas.
Aprendi outros códigos.
Outras formas de existir.
Outros lugares.
Outros papéis.
Passei pela formação em áreas administrativas, Contabilidade, Gestão de Pessoas e Psicologia.
Trabalhei em diferentes contextos.
Conheci o comércio.
O varejo.
A indústria.
As organizações.
As pessoas.
As relações.
A gestão.
E fui construindo repertório.
Eu estava aprendendo a ocupar diferentes lugares.
Aprender a pertencer
Nós aprendemos a pertencer antes mesmo de aprendermos a escolher quem queremos ser.
Aprendemos observando.
Aprendemos respondendo ao que o ambiente nos pede.
Aprendemos a ocupar lugares.
A corresponder.
A adaptar.
A desempenhar.
A cuidar.
A resolver.
A ser aquilo que, naquele momento, parece necessário.
E não há nada de errado nisso.
Nós existimos em relação.
Os papéis fazem parte da nossa existência.
O problema não é ter aprendido uma forma de estar.
O problema pode surgir quando esquecemos que existem outras possibilidades.
A botina e a caneta
Em algum momento, a minha história me levou de volta ao Agro.
Mas eu não voltei como a menina que havia saído.
Voltei pela agroindústria.
Depois pela operação agrícola.
Passei por diferentes realidades: grãos, cana-de- açúcar, citros e também experiências ligadas à pecuária.
Voltei para um território que já conhecia.
Mas agora havia alguma coisa diferente.
Eu tinha repertório.
Tinha formação.
Tinha experiência com pessoas.
Tinha experiência com gestão.
Tinha aprendido a olhar para organizações.
E então aconteceu uma imagem que, para mim, traduz muito da minha trajetória:
a botina voltou.
Mas agora havia também a caneta.
A botina me dava território.
A caneta me dava linguagem.
Eu estava no mesmo universo, mas já não era a mesma mulher.
Quando a adaptação deixa de ser liberdade
Ao longo dessa trajetória, também fui percebendo o quanto podemos aprender a funcionar de determinadas maneiras.
A adaptar.
A responder.
A ocupar.
A sustentar.
A dar conta.
E, durante muito tempo, talvez eu também tenha confundido capacidade de adaptação com necessidade de continuar suportando.
Até que meu próprio caminho me pediu outra coisa.
Foi preciso parar.
Olhar.
Sentir.
Compreender.
A Travessia
Houve um momento em que aquilo que eu vinha sustentando já não fazia sentido da mesma maneira.
Eu havia aprendido a funcionar.
A ocupar lugares.
A responder.
Mas alguma coisa dentro de mim havia perdido o contato com aquilo que tornava a vida viva.
A vida perdeu a graça porque eu parei de sentir.
E foi justamente nesse lugar que algo começou a voltar.
Minha menina.
Não como uma volta à infância.
Não como uma tentativa de ser quem eu era.
Mas como um reencontro com uma capacidade que havia ficado distante:
sentir.
A menina voltou
A menina me lembrava de algo que a mulher havia esquecido.
A capacidade de sentir.
A curiosidade.
A presença.
A espontaneidade.
A possibilidade de experimentar.
De olhar.
De se encantar.
Mas a adulta também precisava estar ali.
Porque não era suficiente sentir.
Era preciso compreender o que eu sentia.
Dar significado.
Escolher.
Integrar.
A menina sentia.
A adulta compreendeu.
O lugar que eu procurei
Durante muito tempo, procurei meu lugar.
No campo.
Na cidade.
Nas profissões.
Nos papéis.
Nas relações.
Nas experiências.
Eu procurava uma integração fora de mim.
E quanto mais procurava, mais percebia que estava me afastando de mim mesma.
Até compreender uma coisa que mudou a maneira como eu enxergava minha própria história:
o pertencimento que eu procurava não estava em um lugar.
Estava na possibilidade de estar inteira em mim.
Eu não precisava encontrar um lugar perfeito onde finalmente pudesse pertencer.
Precisava aprender a ocupar os lugares da minha vida sem desaparecer dentro deles.
Eu sou o lugar
Eu não precisei escolher entre a mulher que me tornei e a menina que fui.
Não precisei escolher entre campo e cidade.
Entre botina e caneta.
Entre sensibilidade e estrutura.
Entre experiência e conhecimento.
Entre a psicóloga e a profissional de Gestão de Pessoas.
Precisei permitir que essas experiências pudessem ocupar o mesmo lugar.
Foi então que compreendi:
Eu sou o lugar onde essas experiências podem coexistir.
Voltar não é ser quem eu era
Meu retorno ao Agro também mudou de significado.
Eu não voltei para reencontrar o lugar que havia deixado.
Voltei diferente o suficiente para enxergar o que antes eu apenas sentia.
O campo já estava na minha história.
Eu não precisava voltar para provar que pertencia a ele.
Precisava reconhecer o que aquela experiência havia deixado em mim.
E ocupar aquele território com a mulher que eu havia me tornado.
O que a menina sabia
Talvez a menina não soubesse explicar.
Mas ela sabia sentir.
Sabia experimentar.
Sabia olhar.
Sabia estar.
A adulta chegou depois.
Trouxe conhecimento.
Experiência.
Consciência.
Capacidade de escolha.
E talvez seja justamente aí que a história tenha encontrado sua integração.
Eu não voltei para ser quem eu era.
Voltei para compreender aquilo que eu já sabia sem saber explicar.
Eu não voltei para ser quem eu era. Voltei diferente o suficiente para enxergar o que antes eu apenas sentia.
Pertencer sem desaparecer
Hoje, quando penso em pertencimento, não penso mais apenas em encontrar um lugar ou um grupo.
Penso na possibilidade de existir dentro dos lugares que ocupamos sem precisar abandonar partes importantes de nós para caber neles.
Porque nós vamos continuar nos adaptando.
Vamos continuar ocupando papéis.
Vamos continuar mudando.
E isso faz parte da vida.
A questão não é deixar de se adaptar.
É poder se adaptar sem deixar de escolher quem somos nessa relação.
É poder ocupar um papel sem acreditar que ele é tudo o que somos.
É poder mudar sem precisar destruir quem fomos.
É poder pertencer sem desaparecer.
Algumas histórias não terminam
Algumas histórias não terminam.
Elas apenas esperam o momento certo para continuar.
A minha continuou quando eu compreendi que não precisava escolher entre as partes da minha história.
Eu poderia deixá-las conversar.
A menina e a adulta.
O campo e a cidade.
A botina e a caneta.
A experiência e o conhecimento.
A sensibilidade e a estrutura.
O sentir e o compreender.
Tudo aquilo que eu havia vivido não precisava mais disputar espaço.
Poderia coexistir.
Fechamento
Talvez essa seja a verdadeira travessia.
Não voltar para quem fomos.
Não construir uma versão ideal de quem deveríamos ser.
Mas ampliar nossas possibilidades de existir.
Reconhecer aquilo que fomos.
Compreender aquilo que aprendemos.
Integrar aquilo que ficou pelo caminho.
E escolher, com mais liberdade, como queremos ocupar os lugares que a vida nos apresenta.
Porque talvez pertencer não seja finalmente encontrar um lugar onde caibamos.
Talvez seja descobrir que podemos estar inteiras enquanto ocupamos os lugares que a vida nos pede.
E então:
Eu sou o lugar onde essas experiências podem coexistir.

